O pequeno lugar de Porta Cova é a entrada do Trilho do Glaciar e do Alto Vez. Deixamos as viaturas num largo estreito no início da aldeia, na sombra de um maciço montanhoso que escuda o povoado, protegendo as gentes e o gado do frio glaciar que congela a água e as pedras, que o Sol de Inverno não consegue derreter.
Atravessamos a aldeia por caminhos lajeados, escutando o som da água e os badalos do gado, com a parede montanhosa de um lado, e os prados verdes de Sistelo do outro. Nas gentes que encontramos habitavam sorrisos francos, e rasgos de um passado rural que se perpetua no murmúrio do vento sobre os espigueiros, e nos fardos de palha velha que pontuam os socalcos.
Subimos a montanha por um antigo caminho ladeado por árvores mergulhadas num profundo sono invernal, que imprimem à paisagem um certo dourado etéreo, difícil de explicar, fruto da paleta de cores de um dia azul e frio, quente em tonalidades. O verde forte dos musgos contrastando com o cinzento intenso da pedra, os castanhos torrados dos ramos despidos, contrastando com montes graníticos esboroados, cortados por pequenos cursos de água parcialmente gelados, acompanharam-nos até às brandas superiores do Alto Vez.
Das altas cotas do antigo glaciar, surgiu um panorama impressionante de pedra, projectando um colossal anfiteatro natural, que conduz dos montes mais elevados até às minas mais secretas, nas entranhas da Serra, o liquido precioso do rio Vez, que por vezes se avista ao longe em pontos mais borbulhentos, rodeado por choupos, recordando que o Gerês é feito de água cristalina, que corre na seiva das plantas, e na corrente sanguínea dos mamíferos que se escondem nas sombras dos carvalhais e nos matos que ladeiam os trilhos.
Na chegada à parte mais oriental do percurso, as eólicas ganharam protagonismo no recorte da montanha. Depois de umas escorregadelas nos perfis gelados da água de pequenos ribeiros que inundavam o caminho, encontramos a Branda do Furado, pequeno abrigo temporário de Verão, cuja origem está relacionada com a transumância, prática típica do Gerês, caracterizada pela deslocação das populações das suas habitações de Inverno para as zonas mais altas da Serra, onde abundam pastos férteis para alimentar o gado. Aqui apenas encontramos fornos comunitários apagados, e carros de bois cuidadosamente acondicionados em telheiros iluminados pelo sol da tarde.
Subimos até ao alto do monte que vigia a Branda, e seguimos para ocidente, com a Peneda a uns dois quilómetros de distância em linha recta, oculta pela crista de pequenos montes agigantados pela perspectiva do vale glaciar à direita.
Numa descida moderada até Porta Cova, encontramos mais brandas - a Branda da Lapinheira e a Branda de Castribó -, uma das quais habitada por um simpático grupo de vacas borrosãs, que nos saudaram com o seu agradável sorriso bovino, repleto de serenidade e suave contemplação.
Os prados sucederam-se, os caminhos estreitaram, e, rodeados por carvalhos retorcidos pela idade, nas ruinas de uma aldeia adormecida no profundo sono dos musgos, os últimos raios de sol chegaram à terra depois de uma viagem de 150 milhões quilómetros, para colorir as derradeiras pulsações do desenlace de um percurso grandioso, repleto de essência, onde neste preciso instante decorre a mais profunda e perene transformação, donde brotará a próxima estação.
Florestas, lagos, rios, montanhas, aldeias, castelos, templos, cidades e serras, encontram-se cruzadas por caminhos antigos que unem gentes e geografias numa rede global primordial. Levantemos os olhos para o céu e encurtemos as distâncias que nos separam da realidade natural, percorrendo os trilhos pedestres de um mundo rico em cultura e biodiversidade que vale a pena descobrir passo a passo...
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
À descoberta da Lousã 05/02/2012
No próximo dia 5 de Fevereiro de 2012 partiremos à descoberta da Lousã, para efectuarmos o PR1 “Na Rota dos Moinhos da Serra da Lousã” e o PR2 “Rota das Aldeias Serranas”, num percurso integrado que revelará uma pequena amostra do que esta região tem para oferecer.
O PR1, com inicio junto à fábrica de papel, conduzira-nos pelas margens do Rio Arouce em direcção à Senhora da Ermida. Neste local tomaremos a direcção do PR2 que nos guiará às “Aldeias do Xisto”, aldeias típicas da região, cujas construções como o nome indica são inteiramente realizadas em xisto.
Este percurso evoluirá em grande parte nas encostas da Serra da Lousã e fará a ligação entre o Castelo da Lousã e a Ermida da Nossa Senhora da Piedade com duas das mais emblemáticas Aldeias do Xisto desta serra: o Talasnal e o Casal Novo.
Será igualmente uma viagem no tempo, pois ao fazê-lo repetiremos os passos que os antigos habitantes destas aldeias serranas davam nos únicos acessos que tinham para descer à vila da Lousã. O percurso é enquadrado quase sempre por vegetação e é relativamente protegido em todas as estações do ano.
Marcamos a actividade para as 11:00 da manhã do dia 5 de Fevereiro na vila da Lousã nas seguintes coordenadas:
40°6'16.30"N (latitude) e 8°14'43.46"W (longitude).
O percurso apresenta um grau de dificuldade baixo, sendo recomendado para iniciantes ao “trekking”. No entanto, não se esqueçam de levar comida, água, impermeável, chapéu, e calçado confortável.
Caso estejam interessados em participar mandem um e-mail de confirmação para evasaoverde@gmail.com.
O PR1, com inicio junto à fábrica de papel, conduzira-nos pelas margens do Rio Arouce em direcção à Senhora da Ermida. Neste local tomaremos a direcção do PR2 que nos guiará às “Aldeias do Xisto”, aldeias típicas da região, cujas construções como o nome indica são inteiramente realizadas em xisto.
Este percurso evoluirá em grande parte nas encostas da Serra da Lousã e fará a ligação entre o Castelo da Lousã e a Ermida da Nossa Senhora da Piedade com duas das mais emblemáticas Aldeias do Xisto desta serra: o Talasnal e o Casal Novo.
Será igualmente uma viagem no tempo, pois ao fazê-lo repetiremos os passos que os antigos habitantes destas aldeias serranas davam nos únicos acessos que tinham para descer à vila da Lousã. O percurso é enquadrado quase sempre por vegetação e é relativamente protegido em todas as estações do ano.
Marcamos a actividade para as 11:00 da manhã do dia 5 de Fevereiro na vila da Lousã nas seguintes coordenadas:
40°6'16.30"N (latitude) e 8°14'43.46"W (longitude).
O percurso apresenta um grau de dificuldade baixo, sendo recomendado para iniciantes ao “trekking”. No entanto, não se esqueçam de levar comida, água, impermeável, chapéu, e calçado confortável.
Caso estejam interessados em participar mandem um e-mail de confirmação para evasaoverde@gmail.com.
Trilho do Glaciar e do Alto Vez 29/01/2012
No próximo dia 29 de Janeiro de 2012 será efectuado o Trilho do Glaciar e do Alto Vez, localizado na vertente norte da Serra da Peneda, no extremo noroeste do concelho de Arcos de Valdevez.
Há mais de 20000 anos atrás, durante a última glaciação, o vale do rio Vez, que tinha uma característica forma de V (produzida pela erosão da água), alargou e aprofundou-se devido ao enorme poder de erosão dos antigos glaciares, dando origem a um singular “vale glaciar” em forma de U.
Associado a uma forte componente paisagística, este trilho possibilitará uma observação sobre diverso património geológico que ocorre neste território, com especial destaque para o Vale Glaciar. Também permitirá uma passagem por um vasto complexo agro-silvo-pastoril constituído por núcleos habitacionais, brandas, socalcos, calçadas, regadio, entre outros elementos preciosos que enriquecem patrimonialmente estas comunidades de montanha.
Marcamos a actividade para as 11:00 da manhã do dia 29 de Janeiro na aldeia de Porta Cova nas seguintes coordenadas:
41°58'54.69"N (latitude) e 8°20'47.93"W (longitude).
O percurso apresenta um grau de dificuldade médio, sendo recomendado para iniciantes ao “trekking”. No entanto, não se esqueçam de levar comida, água, impermeável, chapéu, lanternas (de preferência frontais) e calçado confortável.
Caso estejam interessados em participar mandem um e-mail de confirmação para evasaoverde@gmail.com.
Para obteres mais informação sobre o percurso clica aqui.
Há mais de 20000 anos atrás, durante a última glaciação, o vale do rio Vez, que tinha uma característica forma de V (produzida pela erosão da água), alargou e aprofundou-se devido ao enorme poder de erosão dos antigos glaciares, dando origem a um singular “vale glaciar” em forma de U.
Associado a uma forte componente paisagística, este trilho possibilitará uma observação sobre diverso património geológico que ocorre neste território, com especial destaque para o Vale Glaciar. Também permitirá uma passagem por um vasto complexo agro-silvo-pastoril constituído por núcleos habitacionais, brandas, socalcos, calçadas, regadio, entre outros elementos preciosos que enriquecem patrimonialmente estas comunidades de montanha.
Marcamos a actividade para as 11:00 da manhã do dia 29 de Janeiro na aldeia de Porta Cova nas seguintes coordenadas:
41°58'54.69"N (latitude) e 8°20'47.93"W (longitude).
O percurso apresenta um grau de dificuldade médio, sendo recomendado para iniciantes ao “trekking”. No entanto, não se esqueçam de levar comida, água, impermeável, chapéu, lanternas (de preferência frontais) e calçado confortável.
Caso estejam interessados em participar mandem um e-mail de confirmação para evasaoverde@gmail.com.
Para obteres mais informação sobre o percurso clica aqui.
domingo, 15 de janeiro de 2012
À descoberta do Porto | Fotos
O Porto é mais do que aquilo que os roteiros turísticos apresentam: a cidade ostenta uma identidade própria, repleta de história que se perpetua no casario antigo e no olhar das gentes que estendem lençóis perfumados nas varandas sobre o Douro.
O caracter único da Invicta perdura na arquitectura, nos monumentos, nos espaços de lazer e até nas ruas. A proposta de hoje foi descobrir o Porto, numa visita que procurou analisar algumas componentes históricas, ecológicas e sociais da cidade, contemplando “o Porto do romantismo”, a fábrica de Massarelos e as recordações de uma antiga burguesia que subsistem ao tempo.
Partindo dos jardins do Palácio de Cristal, seguimos pelos caminhos do romântico, perfumados pelas fragâncias invernais de plátanos cansados que fitam a cidade há séculos. Na frescura matinal de um Domingo cinzento o Pedro Jorge Pereira, do projecto “Porto de Encontros”, revelou-nos fragmentos de um passado escondido, ao alcance de um olhar mais atento.
Um passado rico em memórias, escritas nas hortas e nas árvores de fruto enraizadas entre muros, que corre o risco de perder-se, devido à falta de um investimento real que assegure a manutenção de um urbanismo sustentável no centro histórico da cidade, aproveitando o casario antigo e os espaços verdes que pintam a Invicta com as cores do Inverno.
Os caminhos antigos, ladeados por uma flora selvagem que embeleza os muros de pedra que delimitam o percurso, conduziram-nos a hortas fecundas que resistem na periferia de fontes secas. No horizonte, avistamos o vale do Douro, composto pela simbiose entre o rio e Vila Nova de Gaia, “chão sagrado” onde repousa com tranquilidade o néctar precioso que projecta a nossa cidade além-fronteiras: o vinho do Porto.
As portadas de antigas casas, na maioria desabitadas, retractaram de uma forma persistente um cenário de abandono, cuja ausência de manutenção e limpeza, começa a esconder o seu traço original.
Enquanto o sol viajou escondido na cúpula celeste, fornecendo às nuvens contrastes intensos nos cinzentos, as horas passaram entre o casario colorido que foi despertando para o almoço. Fragâncias a estrugidos, misturadas com a presença contínua de gotículas invisíveis que transportavam no ar a essência do rio, acompanharam-nos até perto da Cordoaria.
Encerramos o percurso com uma vista soberba sobre o velho casario que ladeia o Douro junto à Alfandega, com a Ponte da Arrábida como pano de fundo, ponderando sobre a urgência de preservar este Porto tão nosso, que empresta a Portugal um Norte forte, repleto de sentido e sentimento.
O caracter único da Invicta perdura na arquitectura, nos monumentos, nos espaços de lazer e até nas ruas. A proposta de hoje foi descobrir o Porto, numa visita que procurou analisar algumas componentes históricas, ecológicas e sociais da cidade, contemplando “o Porto do romantismo”, a fábrica de Massarelos e as recordações de uma antiga burguesia que subsistem ao tempo.
Partindo dos jardins do Palácio de Cristal, seguimos pelos caminhos do romântico, perfumados pelas fragâncias invernais de plátanos cansados que fitam a cidade há séculos. Na frescura matinal de um Domingo cinzento o Pedro Jorge Pereira, do projecto “Porto de Encontros”, revelou-nos fragmentos de um passado escondido, ao alcance de um olhar mais atento.
Um passado rico em memórias, escritas nas hortas e nas árvores de fruto enraizadas entre muros, que corre o risco de perder-se, devido à falta de um investimento real que assegure a manutenção de um urbanismo sustentável no centro histórico da cidade, aproveitando o casario antigo e os espaços verdes que pintam a Invicta com as cores do Inverno.
Os caminhos antigos, ladeados por uma flora selvagem que embeleza os muros de pedra que delimitam o percurso, conduziram-nos a hortas fecundas que resistem na periferia de fontes secas. No horizonte, avistamos o vale do Douro, composto pela simbiose entre o rio e Vila Nova de Gaia, “chão sagrado” onde repousa com tranquilidade o néctar precioso que projecta a nossa cidade além-fronteiras: o vinho do Porto.
As portadas de antigas casas, na maioria desabitadas, retractaram de uma forma persistente um cenário de abandono, cuja ausência de manutenção e limpeza, começa a esconder o seu traço original.
Enquanto o sol viajou escondido na cúpula celeste, fornecendo às nuvens contrastes intensos nos cinzentos, as horas passaram entre o casario colorido que foi despertando para o almoço. Fragâncias a estrugidos, misturadas com a presença contínua de gotículas invisíveis que transportavam no ar a essência do rio, acompanharam-nos até perto da Cordoaria.
Encerramos o percurso com uma vista soberba sobre o velho casario que ladeia o Douro junto à Alfandega, com a Ponte da Arrábida como pano de fundo, ponderando sobre a urgência de preservar este Porto tão nosso, que empresta a Portugal um Norte forte, repleto de sentido e sentimento.
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